dois dedos de conversa com… adriano correia de oliveira

“Colóquio nº 8
1981
Edição do Círculo Cultural de Setúbal.
Dois Dedos de Conversa com… Adriano Correia de Oliveira. Textos.
PORQUÊ “CANTIGAS PORTUGUESAS”?
Responderemos citando Armando Leça: … para identificar a manifestação e comparticipação
do nosso povo através da arte fónica. Também o antropólogo estuda as dimensões dos
crânios, o arqueólogo as ruínas, outros as camadas geológicas. E assim, sabermos o que fomos,
o que assimilámos, conservámos e também temos de nosso. Já Aristóteles incluiu nas suas
obras música popular e, na polifonia dos velhos mestres flamengos, subsistiam os velhos
temas do povo. Charpentier encheu “Louise” de cantos parisienses e Moussorgski, com tão
genial sentido realista, recorreu ao folclore pátrio. … A música popular mantém mais
duradouros os seus elementos próprios, porque não está tão subordinada à moda como a
culta. (In “Música Popular Portuguesa”)
Os actuais meios de comunicação social estatizados e os pasquins privados controlados pelas
“camadas” políticas dominantes, tentam desvalorizar o património cultural da nossa pátria
portuguesa enfeudando-se ao estrangeiro, ou seja, são estranhos ao corpo social português,
que repetidamente enganam e manipulam.
Assim, verifica-se que cerca de 90% da música que se ouve na RTP e RDP é estrangeira! É o
intuito de alienar, ou seja, de promover o alheio para controlar e desvalorizar o “nosso”, a
criatividade real do nosso povo fundada no trabalho colectivo.
Temos também que nos defender da superficialidade que os “estrangeiros” (há bastantes com
bilhetes de identidade de cidadão nacional…) escrevem sobre o nosso regionalismo musical. …
Thiersot em a “Encyclopédie Musicale” baseada em trabalhos avelhentados, sem selecção
típica, fez afirmações tacanhas e infantis sobre as nossas melodias tradicionais. Se esse
folclorista francês ouvisse as moçoilas de Amares, a gente mirandesa e serranos de capucha, a
entoarem coros a três vozes, e as mondadeiras do Baixo-Alentejo… Mas é tão diferente de se
palmilhar a charneca do tocar-se ao piano aquilo que só tem expressão própria, mas aroma
nativo quando ouvido aos timbres eufónicos dessas morenas campaniças que usam chapéu8s
sobre os lenços.
ESTARÁ O FOLCLORE CONDENADO?
Dar voz à música do nosso povo, ou como diz Óscar Lopes (in “Modo de Ler”, pág. n69)
“cultura popular social”, é uma tarefa importante na defesa do nosso património cultural, na
actual situação política que em termos de cultura se caracteriza pela tentativa de depreciação
e mesmo de destruição daquilo que são os valores positivos do caminho do nosso povo ao
longo do tempo. Para melhor prestarem contas não apenas em Espanha como Miguel de
Vasconcelos, mas para lá de Espanha…
Para o purista do folclore este é necessariamente um fenómeno privativo das sociedades
tradicionais, fechadas (hoje, portanto, quase sempre fechadas) e definem- se pelos seus meios
arcaicos de transmissão histórica e geográfica, isto é, por uma transmissão oral e de contacto
pessoal, transmissão não escrita e não mecânica, como as isoglassas da geografia linguística.
A antítese logicamente inevitável do purismo é o negativismo: as sociedades fechadas tendem
hoje a desaparecer; a extinção do analfabetismo, a expansão, aliás imprescindível do ensino
básico, o desenvolvimento multiforme das comunicações não podem deixar de reduzir ao
mínimo a importância da transmissão oral e pessoal que até agora se tem considerado como
definitiva do folclore.A meu ver, quer o purismo quer o negativismo são abordagens insuficientemente adequadas
ao problema. Mas o próprio sentido, que me parece evidente, do progresso social
contemporâneo, a tendência para a diminuição do horário anual, semanal e diário do trabalho
profissional para a qualificação intelectual e para o benefício físico e psicológico das condições
de trabalho, a automatização de tudo o que no trabalho haja de repetitivo e monótono
(mesmo mentalmente), a síntese que superará a contradição rústico-urbana, e ainda a
contradição trabalho-arte, tudo isto determinará mais tarde ou mais cedo num enorme surto
de actividades com o cunho de arte ou jogo, isto é, com o cunho de “vita gratia vita” que é a
única possibilidade real de “ars gratia artis”. E estou convencido de que, na medida em que a
vida passou a constituir um fim superior em si mesma em vez de, por exemplo, um processo
de caça ao lucro (e, como diz a ideologia, do lucro é que resultam todas as formas actualmente
típicas de logro do homem pelo homem), o folclore entrará em renascença efectiva e toda a
grande arte será também mais popular.
(…)
Porque se terá transformado a música e o canto tradicionais dos estudantes de Coimbra numa
forma musical e literária que se aproximou da nossa vida colectiva real?
Certamente porque os sujeitos de privilégios que eram os estudantes começaram a entender
que não mais poderiam viver sozinhos, à sombra do “foro universitário” e isolados da cidade e
do país. Os “futricas” iam ganhando pontos e era inevitável a simbiose de experiências e o
avanço das ideias novas.
À necessidade de “abrir” a sociedade a novas formas de produção e relações de trabalho que
tinham por motor o lucro, contrapunha-se uma nova realidade: a descoberta de um substrato
de injustiças que a consciência dos jovens estudantes não pôde deixar de denunciar. Não será,
assim, de estranhar a inclusão neste “Cantigas Portuguesas” de canções de trabalho referentes
a actividades tais como as malhas, ceifas, etc.
Todo este movimento vem de longe e começa a ganhar corpo nas “popularizações” desse
grande poeta da língua portuguesa e cantor de excepção que é Edmundo de Bettencourt e
com o grupo da Presença, continua-se com as inovações de Fernando Machado Soares e
outros, vem a concretizar-se com José Afonso.
Este movimento, impropriamente designado de “balada”, e que depois alastrou a largos
sectores da canção ligeira portuguesa, parece-nos ser aquilo a que poderemos chamar,
utilizando embora uma expressão grosseira mas talvez mais inteligível que outras, um folclore
(ou uma cultura popular social…) da resistência ao fascismo.”

Fazer o download do documento Colóquio no 8 1981 Edição do Círculo Cultural de Setúbal: Dois Dedos de Conversa com… Adriano Correia de Oliveira

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One thought on “dois dedos de conversa com… adriano correia de oliveira

  1. Paulo Esperança diz:

    Círculo Cultural de Setúbal, de que José Afonso foi fundador , que acabou e que faz muita falta ao panorama cultural da cidade do Sado!

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