Category Archives: depoimento

ZECA AFONSO, “O QUE É PRECISO…”

“…O que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a criar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado ! (…) Acho que acima de tudo é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de musica ou de politica. E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de “Homenzinhos” e “Mulherzinhas” TEMOS É QUE SER GENTE, PÁ !…”

José Afonso – in: Jornal Se7e – 27 Novembro 1985

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CARTA A UM “FILHO DE UM DEUS MAIOR ”

70 ANOS DE ADRIANO – AVINTES,9 DE ABRIL DE 1942

“Já o tempo se ia habituando a navegar por mares adversos e a buscar na inquietação da noite a saída para o quotidiano das ruas da amargura.

Já o tempo se ia habituando a lamber as esquinas ao sabor das fugas que atormentavam o espírito e o corpo.

Já o tempo se ia habituando a avisar em surdina que se erguiam muros em volta dos subterrâneos da liberdade.

Já o tempo se ia habituando a entoar canções com lágrimas como se o choro acalmasse o ódio a uma vida feia, ameaçante sempre a rondar os confins do desespero.

Já o tempo se ia habituando!

Com outros vieste do fundo do tempo a bordo das barcas novas.

Chegaste de mansinho erguendo a voz com pressa de viver naquela terra assombrada.

Sentiste ao que vinhas e cantaste o mês onde começava a mágoa dizendo que nunca poderiam ser os rostos a bater á porta do poema.

Ao vento que passava perguntavas o que já sabias; que o vento calava a desgraça e por isso nada dizia.

Pediste uma capa negra, uma rosa negra que virasse as costas à saudade.

Fizeste-nos namorar com a menina de olhos tristes à espera do soldadinho que nunca mais havia de chegar.

Ensinaste-nos a falar com a lua viajante que nos trazia as más notícias: o soldadinho, afinal, voltava numa caixa de pinho do outro lado do mar.

Disseste-nos que eras livre como as aves, que os corações que nascem livres não se podem acorrentar, que não há ventos que não prestem nem marés que não convenham.

Pediste ao Tejo que lavasse bancos e empresas de comedores de dinheiro, palácios e vivendas, casebres e bairros de lata porque a uns fartam e a outros matam.

Foste dizendo, cantando, avisando até que saíste aparelhando um barco abandonado na praia num Outubro em ressaca das marés vivas, vividas.

Desses tempos tão perto continuam a caminhar – exactamente aqui ao lado – os amigos que já partiram, os amores e os desamores, as vitórias e as derrotas, todas as causas, passadas, presentes e futuras, o mundo que quiseste mudar.

Desses tempos tão perto continuam a caminhar – exactamente aqui ao lado – todos os sonhos, mesmo aqueles que já foram esquecidos, as utopias que parecem loucas, as alegrias e as tristezas que têm assolado este palmilhar de estrada.

Porque nos ensinaste a haver sempre alguém que resiste, sempre alguém que diz não, por teres ajudado a descobrir a saída do vale escuro passaste a caminhar, desta vez não ao lado, mas para sempre dentro da vida de um povo.

Fazendo-nos ao mar para que não fiquemos cercados continuaremos por isso, a acender no teu, o nosso cigarro!”

Paulo Esperança

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O DEPOIMENTO DE TERESA PEREIRA SOBRE OS 25 ANOS DA PARTIDA DO ZECA

Olá amigos!

Cumpriram-se esta semana 25 anos da partida do Zeca. Da saudade que todos temos ,não adianta falar …adianta sim relembrar o Homem ,a sua simplicidade ,a sua intervenção..a sua forma de ser! Falar do Zeca é algo que sempre me comove até às lágrimas, mas não esquecerei nunca a ansiedade de muitos de nós ,para nos deslocarmos a todos os 3 últimos dos seus espectáculos..porque sabíamos que nunca mais o teríamos connosco a cantar ,como só ele sabia fazer. Não ,e esquecerei nunca da ultima vez que o vi e ouvi…foi uma sensação de perda enorme!

Tentávamos agarrar todos os gestos , todos os olhares…para não o perdermos! Dizia o Zè Jorge Letria que o seu olhar não era fixo em nada, se projectava no futuro…e nós olhávamos em busca de uma réstia de esperança!

Quando sai do Coliseu do Porto, agarrava forte na mão do meu companheiro de então e não falávamos…sabíamos que por pouco mais tempo o teríamos, mas nem nos atreviamos a comentar…doía-nos tudo por dentro! íamos pela rua guardando os sons e as imagens dessa noite e não as queríamos perder..se disséssemos algo , interrompia-se a “linha” …

E assim seguimos calados,com aquela dor profunda de quem tem para breve a partida de um amigo, Porque o Zeca era isso mesmo um amigo! Aquele que nas longas noites da ditadura  ecoava baixinho no quarto dos meus pais porque era ali, que estava o rádio, onde , noites fora ,íamos sabendo novas de outros amigos distantes, por força das circunstancias . E o Zeca era essa esperança…que nos fazia tão bem ouvir!

Creio que todos nós sentimos isso..a perda de um amigo! Aquele que sempre vamos recordar como o grande cantor da Liberdade, o grande homem …o homem com o olhar projectado no futuro.

Pode não voltar a cantar , mas estará sempre connosco , nas suas canções ,na sua lembrança!

Porque o Zeca continuará para a eternidade!

Um forte abraço a todos quantos se unem neste projecto.

– Teresa Pereira
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josé afonso fala sobre adriano correia de oliveira

“(…) E muito difícil falar do Adriano, porque a minha relação com ele era muito pessoal,

acompanhei-o muitas vezes… Custa-me, é difícil!

Penso que foi das últimas figuras ligadas à canção política. Ele não dissociava o acto
de cantar do acto de intervir, pondo em relevo, por assim dizer o factor cívico. E isto é
importante porque hoje a tendência é inversa. O Adriano é uma figura quase heróica!

Nunca se negou a ir onde quer que fosse, nas condições mais adversas, sem qualquer tipo de
vantagens pessoais. Existia nele uma grande devoção de carácter ideológico e uma grande
coragem que sempre admirei.

É difícil, muito difícil, falar do Adriano (…)”

José Afonso

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adriano correia de oliveira fala sobre josé afonso

“(…) Falar de José Afonso será com certeza difícil: isto é, dizer com inteira verdade o que

pensamos daquele que é o maior cantor – intérprete português de música ligeira(no sentido
de duração e de simplicidade estrutural) de sempre, de todos os tempos em minha opinião.

Além do mais porque para pôr as cartas na mesa (e fornecer o máximo de elementos de
apreciação a quem ler estas linhas) direi que suponho conhecer muito intimamente o José
Afonso, que por isso mesmo me merece uma admiração e amizade ilimitadas (…)”.

Adriano Correia de Oliveira

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comunicação de joana afonso na conferência que apresentou os “amigos maiores que o pensamento” à comunicação social

“Chamo-me Joana Afonso, tenho 23 anos, vivo em Famalicão e neste país de futuro improvável venho dizer-vos que – como cantou Adriano Correia de Oliveira – não tenho medo, porque a verdade é mais forte que as algemas.

Estou aqui por força de um imperativo ético e social que me leva a não enterrar a cabeça na areia e a não fazer de conta que assobiar para o lado disfarça a minha inquietação.

Subscrevo o projecto “Amigos Maiores que o Pensamento” porque é urgente lembrar a todos – e em especial á minha geração – que não podemos aceitar nenhuma forma de alienação. É possível resistir à obnubilação a que nos votaram, é possível dizer não a este estado de coisas ameaçante que nos confunde os passos, é possível mudar de rumo. Pois é nas nossas mãos que começa a liberdade.

José Afonso e Adriano Correia de Oliveira partiram, é certo, há 25 e 30 anos, respectivamente. No entanto as suas obras e exemplos de intervenção cívica continuam a ser um legado absolutamente actual, urgente e necessário nos tempos que correm.

Por isso, neste projecto – em que cabem todos os que vierem por bem – queremos agitar, avisar, dar poder à malta! Porque o momento presente impõe que cantemos o espírito solidário e as palavras francas de Zeca e Adriano.

À gente da minha geração deixo o desafio: alistem-se nesta jornada de luta e venham connosco construir durante o ano de 2012 um projecto multidisciplinar, criativo, inconformista e absolutamente livre, sem muros nem ameias!

À gente da minha geração – às escolas, às Associações de Estudantes, aos colectivos de juventude – tenho a dizer que todos somos imprescindíveis. Juntos seremos mais fortes, juntos podemos ser mais criativos, juntos podemos ser mais solidários!

Amigos Maiores que o Pensamento – como o foram o Zeca e o Adriano – será um projecto em que cada um de nós deixará no cadinho da solidariedade a marca de um tempo em que resistir, por si só, já será vencer!”

– Joana Afonso

25/01/2012

Mais sobre a apresentação dos Amigos Maiores AQUI.

As fotografias estão disponíveis AQUI.

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dois dedos de conversa com… adriano correia de oliveira

“Colóquio nº 8
1981
Edição do Círculo Cultural de Setúbal.
Dois Dedos de Conversa com… Adriano Correia de Oliveira. Textos.
PORQUÊ “CANTIGAS PORTUGUESAS”?
Responderemos citando Armando Leça: … para identificar a manifestação e comparticipação
do nosso povo através da arte fónica. Também o antropólogo estuda as dimensões dos
crânios, o arqueólogo as ruínas, outros as camadas geológicas. E assim, sabermos o que fomos,
o que assimilámos, conservámos e também temos de nosso. Já Aristóteles incluiu nas suas
obras música popular e, na polifonia dos velhos mestres flamengos, subsistiam os velhos
temas do povo. Charpentier encheu “Louise” de cantos parisienses e Moussorgski, com tão
genial sentido realista, recorreu ao folclore pátrio. … A música popular mantém mais
duradouros os seus elementos próprios, porque não está tão subordinada à moda como a
culta. (In “Música Popular Portuguesa”)
Os actuais meios de comunicação social estatizados e os pasquins privados controlados pelas
“camadas” políticas dominantes, tentam desvalorizar o património cultural da nossa pátria
portuguesa enfeudando-se ao estrangeiro, ou seja, são estranhos ao corpo social português,
que repetidamente enganam e manipulam.
Assim, verifica-se que cerca de 90% da música que se ouve na RTP e RDP é estrangeira! É o
intuito de alienar, ou seja, de promover o alheio para controlar e desvalorizar o “nosso”, a
criatividade real do nosso povo fundada no trabalho colectivo.
Temos também que nos defender da superficialidade que os “estrangeiros” (há bastantes com
bilhetes de identidade de cidadão nacional…) escrevem sobre o nosso regionalismo musical. …
Thiersot em a “Encyclopédie Musicale” baseada em trabalhos avelhentados, sem selecção
típica, fez afirmações tacanhas e infantis sobre as nossas melodias tradicionais. Se esse
folclorista francês ouvisse as moçoilas de Amares, a gente mirandesa e serranos de capucha, a
entoarem coros a três vozes, e as mondadeiras do Baixo-Alentejo… Mas é tão diferente de se
palmilhar a charneca do tocar-se ao piano aquilo que só tem expressão própria, mas aroma
nativo quando ouvido aos timbres eufónicos dessas morenas campaniças que usam chapéu8s
sobre os lenços.
ESTARÁ O FOLCLORE CONDENADO?
Dar voz à música do nosso povo, ou como diz Óscar Lopes (in “Modo de Ler”, pág. n69)
“cultura popular social”, é uma tarefa importante na defesa do nosso património cultural, na
actual situação política que em termos de cultura se caracteriza pela tentativa de depreciação
e mesmo de destruição daquilo que são os valores positivos do caminho do nosso povo ao
longo do tempo. Para melhor prestarem contas não apenas em Espanha como Miguel de
Vasconcelos, mas para lá de Espanha…
Para o purista do folclore este é necessariamente um fenómeno privativo das sociedades
tradicionais, fechadas (hoje, portanto, quase sempre fechadas) e definem- se pelos seus meios
arcaicos de transmissão histórica e geográfica, isto é, por uma transmissão oral e de contacto
pessoal, transmissão não escrita e não mecânica, como as isoglassas da geografia linguística.
A antítese logicamente inevitável do purismo é o negativismo: as sociedades fechadas tendem
hoje a desaparecer; a extinção do analfabetismo, a expansão, aliás imprescindível do ensino
básico, o desenvolvimento multiforme das comunicações não podem deixar de reduzir ao
mínimo a importância da transmissão oral e pessoal que até agora se tem considerado como
definitiva do folclore.A meu ver, quer o purismo quer o negativismo são abordagens insuficientemente adequadas
ao problema. Mas o próprio sentido, que me parece evidente, do progresso social
contemporâneo, a tendência para a diminuição do horário anual, semanal e diário do trabalho
profissional para a qualificação intelectual e para o benefício físico e psicológico das condições
de trabalho, a automatização de tudo o que no trabalho haja de repetitivo e monótono
(mesmo mentalmente), a síntese que superará a contradição rústico-urbana, e ainda a
contradição trabalho-arte, tudo isto determinará mais tarde ou mais cedo num enorme surto
de actividades com o cunho de arte ou jogo, isto é, com o cunho de “vita gratia vita” que é a
única possibilidade real de “ars gratia artis”. E estou convencido de que, na medida em que a
vida passou a constituir um fim superior em si mesma em vez de, por exemplo, um processo
de caça ao lucro (e, como diz a ideologia, do lucro é que resultam todas as formas actualmente
típicas de logro do homem pelo homem), o folclore entrará em renascença efectiva e toda a
grande arte será também mais popular.
(…)
Porque se terá transformado a música e o canto tradicionais dos estudantes de Coimbra numa
forma musical e literária que se aproximou da nossa vida colectiva real?
Certamente porque os sujeitos de privilégios que eram os estudantes começaram a entender
que não mais poderiam viver sozinhos, à sombra do “foro universitário” e isolados da cidade e
do país. Os “futricas” iam ganhando pontos e era inevitável a simbiose de experiências e o
avanço das ideias novas.
À necessidade de “abrir” a sociedade a novas formas de produção e relações de trabalho que
tinham por motor o lucro, contrapunha-se uma nova realidade: a descoberta de um substrato
de injustiças que a consciência dos jovens estudantes não pôde deixar de denunciar. Não será,
assim, de estranhar a inclusão neste “Cantigas Portuguesas” de canções de trabalho referentes
a actividades tais como as malhas, ceifas, etc.
Todo este movimento vem de longe e começa a ganhar corpo nas “popularizações” desse
grande poeta da língua portuguesa e cantor de excepção que é Edmundo de Bettencourt e
com o grupo da Presença, continua-se com as inovações de Fernando Machado Soares e
outros, vem a concretizar-se com José Afonso.
Este movimento, impropriamente designado de “balada”, e que depois alastrou a largos
sectores da canção ligeira portuguesa, parece-nos ser aquilo a que poderemos chamar,
utilizando embora uma expressão grosseira mas talvez mais inteligível que outras, um folclore
(ou uma cultura popular social…) da resistência ao fascismo.”

Fazer o download do documento Colóquio no 8 1981 Edição do Círculo Cultural de Setúbal: Dois Dedos de Conversa com… Adriano Correia de Oliveira

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“outros tempos…ou não”, o testemunho de pedro barroso para os “amigos maiores”

Combinávamos na Era Nova, na Avenida de D Carlos, em Lisboa, que era a sede da Cooperativa. Edifício ocupado, em tempos de revolução; tempos adiados de renda e provisórios na definição, todos sabiam.

Ajustavam-se então os sítios, os percursos, os carros, as caminhadas, as horas. Quem ia com quem, onde, quem, se e quanto nos ajudariam na gasolina.

Normalmente, a Irene baralhava tudo, pois o seu conhecimento da Geografia portuguesa era diminuto. Uma vez, um coro esperado em Vendas Novas foi parar a Odemira. Era tudo muito divertido. Para muitos era uma forma de descobrir finalmente, Portugal.

Na viagem parávamos para endireitar as costas, vigiar a carga, ver se o pneu já tinha rebentado. Digo isto, que me lembrei agora, porque tive, de facto, um pneu com um aneurisma de estimação perigosíssimo, que andou centenas de quilómetros no meu GS amarelo, até que o Chico Fanhais me proibir de andar com aquilo. Curiosamente, não por questões de segurança, mas porque queria andar mais depressa.

Chegar para o jantar era uma festa. Os amigos radicados no local, gente distante dos centros, activistas de combate local, malta insistente no convite, ficava aliviada.

Tínhamos, realmente, chegado. O Zeca já chegou, avisavam-se uns aos outros. Era um alívio.

Éramos normalmente anunciados – com a presença do Zeca e outros.

Eu, claro, era um dos outros. A teoria dos vade mecums, estão a ver. Os vade mecuns éramos nós, os outros. Os badamecos, em moderna corruptela, nada mais que isso. Cheios de importância por estarmos ali com o Zeca ou o Adriano. Ou por estarmos ali solidários, e fazermos parte de um grupo de gente que se estimava. Importantes no espaço e no momento, até por sermos sérios no lado de dentro de tudo o que fazíamos e acreditávamos.

O Zeca não gostava disto, por desrespeito aos colegas; mas nem nós nos importávamos, nem era corrigível. Por toda a parte, escrevia-se assim. Éramos os outros.

Toquei quilómetros de chula da Povoa com o Zeca, chiça. Lembram-se? Começava assim:

Em Janeiro bebo o vinho,

em Fevereiro como o pão,

nem que chovam picaretas,

hás-de cair rei Milhão.

Éramos muitos.

O Aristides, quase sempre de sandálias; o exímio Iglésias, que, mais tarde, vim a encontrar em Nova Iorque, onde vive; o Chico Fanhais, de voz eclesiástica e timbre inconfundível; o nosso eterno o Adriano, que tão breve se tornou; o Fausto, sempre exigente nos arranjos; o bizarro Fernando Laranjeira.

O Mário Viegas, por vezes, vinha e dizia um poema maluco, coisas que só ele descobria. Ou o Zé Fanha, que os escrevia com sentimento e dizia como ninguém. Aparecia o Paulo Vaz de Carvalho, que tocava com o Adriano e encantava-nos – onde raio tinha ele descoberto aquele gajo? Havia os Salomés todos, cinco irmãos do Redondo, uma festa à parte, alentejana, às vezes lá vinha o Grupo todo, onde o Janita requintava. O Moniz. Do norte vinham o Tino Flores e o Manel, carregando a Pedra, que todos entoávamos. E o António Macedo canta, canta, amigo, canta. O Pintinhas trazia um alforge com adufes, uma alegria.

Todos tocávamos de tudo um pouco – guitarras, percussões, coros.

Como nunca fiz questão de separar as águas, por vezes tocava também com gente da Cantar Abril. O José Jorge Letria, o Barata Moura, o Samuel, o Tordo; o genial Ary, com quem dava abraços de tremer a terra e dar conta dos costados a qualquer um.

Depois separamo-nos, cada um foi à sua vida, com projecto próprio. Ou não.

Muitos partiram mesmo; outros foram vítimas das mil mortes que há na vida.

Eu comecei a gravar regularmente e a fazer Concertos por esse país fora. Sempre falei imenso entre canções, das intenções que presidem a cada composição, o caso especifico que determinou aquele trabalho, a história que lhe está associada. Um chato. Talvez porque fui professor uma vida; e só muito a medo larguei uma situação confortável – embora para mim, insustentável – de ordenado certo e prestigiante doutoria efectiva, num velho Liceu de Lisboa.

Escolhi aprofundar a música com mais rigor; e as palavras com mais merecimento.

Mas lembro com a memória mais clara de mim mesmo, como era bom ser ainda criança e acreditar tanto no Futuro.

Subíamos ao palco com a alegria do combate. Combatíamos pelo presente, nunca suficientemente socialista; pelas ameaças da reacção, nunca suficientemente controlada e pela continuidade do espírito de Abril. Temíamos o regresso da censura, do país velho, cinzento, triste e salazarento onde havíamos crescido.

Continuava a ser preciso exorcizar o medo.

Hoje chegámos a isto.

De tantos socialismos, sociais socialismos, centrais socialismos, democrático socialismos, e seja lá como se chame a tudo o que passámos e vivemos. De todas as glórias e angústias e passados. De todas as benesses e enfados. De todos os milhões da CEE. Ao fim de todos os enganos e desmandos de quem nos governou. Ao fim de um cansaço imenso de já não acreditar em nada.

Chegámos ao estado de podridão de tudo o que nos rodeia, mesmo da lendária deusa Europa – que era loira – hoje podre de feia. E ameaçadoramente exigente, como uma amante passada do prazo, chata, em menopausa financeira, de casaco apertado no peito, mal disposta e falando uma língua difícil.

Hoje, estamos aqui, companheiros. Entre o sonho de ternura que nos roubam e o preito de justiça que nos arrancam.

Entre a reforma aos 67 anos, ou quando decidirem, e as outras mortes de processamento benigno, cívico, urbanamente aceitáveis – compromissos menores de um viver poucamente ambicioso. Hoje aqui estamos; encabulados, estupefactos e enfiados na desilusão.

Viver aqui e agora, podia ser bem mais que isto que nos dão. Digo eu.

E olho as velhas guitarras que fizeram a revolução neste país; que ainda estão ali, ao alto do armário. Enquanto o peito cava renascente, uma alma indigna e amarga.

Um sentido de futuro melhor. Onde tudo saiba acontecer de novo, se necessário for.

Em que do lixo nos tornemos gente, de novo, aos olhos do porvir.

Pedro Barroso

Autor compositor e músico

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