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depoimento de josé afonso sobre adriano correia de oliveira

“ É muito difícil falar do Adriano, porque na minha relação com ele era muito pessoal, acompanhei-o muitas vezes… Custa-me, é difícil!

Penso que foi das últimas figuras ligadas à canção política. Ele não dissociava o acto de cantar do acto de intervir, pondo em relevo, por assim dizer, o factor cívico. E isto é importante porque hoje a tendência é inversa.

O Adriano é uma figura quase heróica!

Nunca se negou a ir onde quer que fosse, nas condições mais adversas, sem qualquer tipo de vantagens pessoais. Existia nele uma grande devoção de carácter ideológico e uma grande coragem que sempre admirei.

É difícil, muito difícil, falar do Adriano.”

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depoimento de josé niza

Participando de corpo inteiro, e de alma e coração, na vida estudantil do início dos anos 60, e na contestação ao regime político – que culminou com a greve de 1962 – Adriano cedo se apercebeu que a canção era uma forma de intervenção política de grande eficácia. E foi assim que, em plena ditadura, Adriano teve a coragem de cantar textos que mais ninguém cantou e que – tal como José Afonso contribuíram para corroer o regime de Salazar e Caetano e para a criação das condições que levaram ao 25 de Abril de 1974.

(…)

O Canto e as Armas. Álbum editado em 1969, ano da greve académica que agitou o país e fez oscilar o regime de Marcelo Caetano. O Canto e as Armas, no momento em que foi lançado, talvez tenha constituído o disco mais corajoso e eficaz de toda a canção de intervenção, numa altura em que a censura e a PIDE não perdoavam estes devaneios.

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O Adriano, como o Zeca, como eu, como muitos outros, não sabia ler nem escrever uma única nota musical. Partiu e chegou à praça das canções apenas com a sua voz, a sua viola e a sua sensibilidade para a poesia e para a realidade triste de um país que ajudou a mudar e a reconstruir

(…)

As notas de banco – que lhe eram necessárias para sobreviver, para educar os filhos, para viver com alguma segurança – trocou-as pelas notas de música e pelas palavras dos poetas que cantou. E isso lhe bastava. Por isso morreu pobre. E triste…”

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