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CONCERTO NOITE DA MEMÓRIA, COM PEDRO BARROSO

 

 

Concerto de evocação de mais de 40 anos de carreira inserido nas

 

Festas da Bênção do Gado

 

Palco 1

 

 

 

28 JULHO 2012 – 22.30

 

Riachos – Ribatejo

 

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ABRIL EM SANTARÉM

O programa completo pode ser consultado aqui.

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“outros tempos…ou não”, o testemunho de pedro barroso para os “amigos maiores”

Combinávamos na Era Nova, na Avenida de D Carlos, em Lisboa, que era a sede da Cooperativa. Edifício ocupado, em tempos de revolução; tempos adiados de renda e provisórios na definição, todos sabiam.

Ajustavam-se então os sítios, os percursos, os carros, as caminhadas, as horas. Quem ia com quem, onde, quem, se e quanto nos ajudariam na gasolina.

Normalmente, a Irene baralhava tudo, pois o seu conhecimento da Geografia portuguesa era diminuto. Uma vez, um coro esperado em Vendas Novas foi parar a Odemira. Era tudo muito divertido. Para muitos era uma forma de descobrir finalmente, Portugal.

Na viagem parávamos para endireitar as costas, vigiar a carga, ver se o pneu já tinha rebentado. Digo isto, que me lembrei agora, porque tive, de facto, um pneu com um aneurisma de estimação perigosíssimo, que andou centenas de quilómetros no meu GS amarelo, até que o Chico Fanhais me proibir de andar com aquilo. Curiosamente, não por questões de segurança, mas porque queria andar mais depressa.

Chegar para o jantar era uma festa. Os amigos radicados no local, gente distante dos centros, activistas de combate local, malta insistente no convite, ficava aliviada.

Tínhamos, realmente, chegado. O Zeca já chegou, avisavam-se uns aos outros. Era um alívio.

Éramos normalmente anunciados – com a presença do Zeca e outros.

Eu, claro, era um dos outros. A teoria dos vade mecums, estão a ver. Os vade mecuns éramos nós, os outros. Os badamecos, em moderna corruptela, nada mais que isso. Cheios de importância por estarmos ali com o Zeca ou o Adriano. Ou por estarmos ali solidários, e fazermos parte de um grupo de gente que se estimava. Importantes no espaço e no momento, até por sermos sérios no lado de dentro de tudo o que fazíamos e acreditávamos.

O Zeca não gostava disto, por desrespeito aos colegas; mas nem nós nos importávamos, nem era corrigível. Por toda a parte, escrevia-se assim. Éramos os outros.

Toquei quilómetros de chula da Povoa com o Zeca, chiça. Lembram-se? Começava assim:

Em Janeiro bebo o vinho,

em Fevereiro como o pão,

nem que chovam picaretas,

hás-de cair rei Milhão.

Éramos muitos.

O Aristides, quase sempre de sandálias; o exímio Iglésias, que, mais tarde, vim a encontrar em Nova Iorque, onde vive; o Chico Fanhais, de voz eclesiástica e timbre inconfundível; o nosso eterno o Adriano, que tão breve se tornou; o Fausto, sempre exigente nos arranjos; o bizarro Fernando Laranjeira.

O Mário Viegas, por vezes, vinha e dizia um poema maluco, coisas que só ele descobria. Ou o Zé Fanha, que os escrevia com sentimento e dizia como ninguém. Aparecia o Paulo Vaz de Carvalho, que tocava com o Adriano e encantava-nos – onde raio tinha ele descoberto aquele gajo? Havia os Salomés todos, cinco irmãos do Redondo, uma festa à parte, alentejana, às vezes lá vinha o Grupo todo, onde o Janita requintava. O Moniz. Do norte vinham o Tino Flores e o Manel, carregando a Pedra, que todos entoávamos. E o António Macedo canta, canta, amigo, canta. O Pintinhas trazia um alforge com adufes, uma alegria.

Todos tocávamos de tudo um pouco – guitarras, percussões, coros.

Como nunca fiz questão de separar as águas, por vezes tocava também com gente da Cantar Abril. O José Jorge Letria, o Barata Moura, o Samuel, o Tordo; o genial Ary, com quem dava abraços de tremer a terra e dar conta dos costados a qualquer um.

Depois separamo-nos, cada um foi à sua vida, com projecto próprio. Ou não.

Muitos partiram mesmo; outros foram vítimas das mil mortes que há na vida.

Eu comecei a gravar regularmente e a fazer Concertos por esse país fora. Sempre falei imenso entre canções, das intenções que presidem a cada composição, o caso especifico que determinou aquele trabalho, a história que lhe está associada. Um chato. Talvez porque fui professor uma vida; e só muito a medo larguei uma situação confortável – embora para mim, insustentável – de ordenado certo e prestigiante doutoria efectiva, num velho Liceu de Lisboa.

Escolhi aprofundar a música com mais rigor; e as palavras com mais merecimento.

Mas lembro com a memória mais clara de mim mesmo, como era bom ser ainda criança e acreditar tanto no Futuro.

Subíamos ao palco com a alegria do combate. Combatíamos pelo presente, nunca suficientemente socialista; pelas ameaças da reacção, nunca suficientemente controlada e pela continuidade do espírito de Abril. Temíamos o regresso da censura, do país velho, cinzento, triste e salazarento onde havíamos crescido.

Continuava a ser preciso exorcizar o medo.

Hoje chegámos a isto.

De tantos socialismos, sociais socialismos, centrais socialismos, democrático socialismos, e seja lá como se chame a tudo o que passámos e vivemos. De todas as glórias e angústias e passados. De todas as benesses e enfados. De todos os milhões da CEE. Ao fim de todos os enganos e desmandos de quem nos governou. Ao fim de um cansaço imenso de já não acreditar em nada.

Chegámos ao estado de podridão de tudo o que nos rodeia, mesmo da lendária deusa Europa – que era loira – hoje podre de feia. E ameaçadoramente exigente, como uma amante passada do prazo, chata, em menopausa financeira, de casaco apertado no peito, mal disposta e falando uma língua difícil.

Hoje, estamos aqui, companheiros. Entre o sonho de ternura que nos roubam e o preito de justiça que nos arrancam.

Entre a reforma aos 67 anos, ou quando decidirem, e as outras mortes de processamento benigno, cívico, urbanamente aceitáveis – compromissos menores de um viver poucamente ambicioso. Hoje aqui estamos; encabulados, estupefactos e enfiados na desilusão.

Viver aqui e agora, podia ser bem mais que isto que nos dão. Digo eu.

E olho as velhas guitarras que fizeram a revolução neste país; que ainda estão ali, ao alto do armário. Enquanto o peito cava renascente, uma alma indigna e amarga.

Um sentido de futuro melhor. Onde tudo saiba acontecer de novo, se necessário for.

Em que do lixo nos tornemos gente, de novo, aos olhos do porvir.

Pedro Barroso

Autor compositor e músico

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