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VÍDEO: O BALANÇO DE UM ANO EM HOMENAGEM A ZECA E ADRIANO

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CRÓNICA PARA O JORNAL DE AMARANTE, JOÃO PEREIRA DA SILVA

MARÉ ALTA. MARÉ ALTA. MARÉ ALTA*

…foi o que aconteceu no passado  sábado, dia 1 de Dezembro. Data patriótica que a miséria de ideias reduzirá à vulgaridade, tão vazia como o seu suporte, já a partir do próximo ano!

O Cinema Teixeira de Pascoaes abraçou, franqueando as portas, e toda a gente foi convidada para a peça “Vejam bem. Na sala há 5 meninas. O calor em crescendo que uma hora e quinze minutos de espectáculo que nos proporcionou o Grupo de Teatro O Fantocheiro, deixou bem lá fora o frio intenso que essa noite se derramou em Amarante.

Os títulos e as letras das canções que em convite se distribuíram pela Cidade e o cartaz de formato A3 que nas vitrinas se viam patenteavam em roda pé o movimento promotor do espectáculo de teatro e que se consubstanciava em uma só frase: Amigos Maiores que o pensamento!

E foram essas letras e muitas mais as que se desenrolaram com arte, simplesmente com arte – a aproximar-se da magia que a arte da representação proporciona -, ainda que vertida por jovens (amadores). Sem cachés. Apenas o amor que, votado à causa da representação e ao momento Zeca Afonso, foi a moeda de troca. Nomeiem-se, portanto, os actores, o encenador, o cantor, o saxofonista, (e ainda) os técnicos do audiovisual e da iluminação, a senhora da limpeza e a funcionária destacadas pela Câmara Municipal de Amarante. Todos eles merecem aqui ficarem gravados. A saber: Ana Sofia, Anita Teixeira, Bruna Baltazar, Catarina, Maria, Jorge Ramos; Rogério Ribeiro; Fernando Ribeiro; Artur; Fernando Cardoso, João; Aurora e Sílvia Ribeiro. É que todos devem constar nesta crónica pois foram os contribuintes fundamentais para esta feliz noite, noite que nos aproximou na fraternidade propalada nas canções. Em que os valores da cidadania nelas implícitas quase que agiram como catarse, numa sublimação do opróbrio diariamente sentido na pele de todos nós, mas fundamentalmente presentes e necessários no cerrar fileira contra a resignação!

(Não poderão ficar de fora todos os que sentiram a necessidade de contribuir monetariamente para cobrir despesas basilares, em grande maioria, notou-se, com sofrido pecúlio, para que a peça por meras horas se fundeasse entre nós. A esses anónimos, a organização agradece de viva alma).

Pelo número bem notório de espectadores, melhor: de participantes, dir-se-ia: muitos, – maugrado a inexpressiva ou nula divulgação em que a organização creditou os órgãos de comunicação escrita e audiovisual para essa digníssima função cívica mas que “esqueceram” – foram no desenvolvimento da peça bem apreendidas as mensagens espelhadas nos bilhetes-convite “Venham Mais Cinco” e  “Traz Outro Amigo Também”, ao contribuírem efusiva e decididamente na interacção e na cumplicidade que se pretendia que o espectáculo provocasse.

E provocou com vivas repetidíssimos ao poeta, cantor andarilho, ao Cidadão José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos falecido há vinte e cinco anos. E, assim, poder-se-á repetir:

Podem as cores de Abril desbotarem.

Podem aos próprios cravos murcharem.

A mensagem de Zeca Afonso, essa não morrerá nunca!

– Maré alta. Maré alta. Maré alta!

João Pereira da Silva        04.12.2012

 

*título de canção de Sérgio Godinho

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PROPOSTA DE ACTA|| ENCONTRO DE SUBSCRITORES

PROPOSTA DE ACTA|| ENCONTRO DE SUBSCRITORES|| AMIGOS MAIORES QUE O PENSAMENTO|| MIRA- 15 DE SETEMBRO

1-Conforme acordado em Julho, no Porto realizou-se em MIRA (Café Aliança), por iniciativa do Movimento Cultura e Cidadania mais um Encontro de subscritores do projecto AMIGOS MAIORES QUE O PENSAMENTO,

2-O Encontro foi precedido da apresentação da obra “PROVAS DE CONTACTO” tendo contado com a participação de António Veríssimo (MCC), Isabel Rocha (CulturePrint) e Rui Pato,

3-Para além de Rui Pato e Isabel Rocha estiveram presentes alguns dos depoentes no livro como Raul Calado, José (jazzé) Duarte, Paulo Esperança e Camilo Mortágua.
De registar, ainda, a presença do Presidente da Câmara de Mira, João Reigota e de Francisco Fanhais, Presidente da Associação José Afonso.

4-Foi feita uma breve abordagem à temática do livro tendo sido generalizadamente reconhecido que se trata de um excelente trabalho de divulgação da obra e exemplo cívico de Adriano Correia de Oliveira e José Afonso. As autoras (CulturePrint) estão disponíveis para participarem em outras sessão de apresentação da obra,

5-De seguida passou-se,informalmente, à reunião propriamente dita na qual participaram diversos subscritores individuais e algumas entidades, tais como a Escola Secundária Alexandre Herculano ( Porto), Verdegaia – Estudo, Defesa e Divulgação do Património ( Vila Nova de Gaia), CulturePrint ( Porto), AJA norte, AJA – Região de Aveiro , Movimento Cultura e Cidadania ( Mira) e o grupo “Canto d ´Aqui” (Braga),

6-Foram prestadas informações sobre as actividades realizadas desde o último Encontro a saber:
– 19 de Julho – GALERIA PORTO ORIENTAL/ Gente do “CANTO D´AQUI” (Braga) concerto integrado na exposição “Amigos Maiores que o Pensamento”,
-3|4|5 de Agosto – participação no “Intercéltico de Sendim com uma faixa permanente do projecto, banca com material de divulgação e apelo à subscrição ( cerca de 30 novos aderentes) ; apresentação do livro de Mário Correia, “Adriano Correia de Oliveira – Um Trovador da Liberdade,
-17 e 18 de Agosto – Guimarães- Circulo de Arte e Recreio – ASSOCIAÇÕES AO CORETO – com a participação da AJA NORTE e de Gente do “CANTO D´AQUI”,
-1 DE SETEMBRO – Iniciativa designada “GAFANHA FALA DE SI” (Gafanha da Nazaré). Projecto representado por Manuel Janicas (Aveiro) que teve intervenções poéticas sobre a Amizade e Amigos Maiores,
-2 de Setembro – AMIGOS MAIORES QUE A MÚSICA- Lançamento do livro “PROVAS DE CONTACTO” (CulturePrint) no Palácio de Cristal (Porto) com um concerto em que intervieram “Octeto Amigos Maiores”, Maestro António Victorino de Almeida e Miguel Leite, ContraCorrente e Frei Fado d´El Rei,
-8 Setembro – Festa do Avante – apresentação do livro “Provas de Contacto”,
– Continuaram as “Viagem pela Memória – Adriano e Zeca” na Taberna SUBURA (Braga).

7-De seguidas foram dadas informações sobre iniciativas que estão já marcadas no âmbito deste projecto:
-15 de Setembro ( 22h), Feira do Livro de Gondomar – apresentação do livro “Provas de Contacto” a cargo de Inês Castanheira (CulturePrint”, Júlio Cardoso (Teatro Seivatrupe) e José António Gomes. Animação poética de Ana Afonso, música com José Silva,
-22 de Setembro – Orfeão de Matosinhos- Tributo poético e musical a Zeca e Adriano
– Outubro – possibilidade de lançamento do Livro de Mário Correia sobre o Adriano numa organização da Associação Cultural Francisco de Sá de Miranda (Braga)
– 5 de Outubro – Concerto em Baião numa organização da Associação Amigos S. Tomé de Covelas e da AJA norte com o apoio do Município,
– 7 de Outubro – “Canto d´Aqui – concerto “Amigos Maiores que o Pensamento” na Casa da Música”, Porto.
– 20 de Outubro – Organização do Sindicato dos Professores do Norte – Aveiro Norte e projecto “Amigos Maiores que o Pensamento”- Concerto com a “A TRuPe – Animação, Teatro de Rua & Percussão” (Santa Maria da Feira), “Gente d´Alma Portuguesa” e Amigos (Ovar/ S. João da Madeira) e Grupo Vocal “Canto Décimo” (Ovar)
-Festa da Cultura e da Cidadania

8- Foi aberta a discussão entre todos os presentes sendo de realçar algumas ideias:
– este projecto tem valido a pena porque não se substitui, não impõe, não se sobrepõe ao trabalho que os vários subscritores vêm realizando antes ajuda e colabora,
-é um projecto livre sem amarras ou “direcções” de qualquer espécie,
-seria bom que se tentasse colaborar mais com entidades e colectivos populares,
-o campo da lusofonia deve ser mais bem “explorado”,

9-Por último foi sentimento geral dos intervenientes que se deve começar a fazer balanços de mais de um ano de trabalho para que a experiência sirva para memória futura,

10-Alguns intervenientes questionaram o porquê deste projecto terminar em 31 de Dezembro de 2012. Foi esclarecido que o desafio foi, e continua a ser feito, para que se celebrasse a vida e obra de Adriano e José Afonso, exactamente no ano em que passam, respectivamente, 30 e 25 anos que foram para outras paragens. Ora esse ano decorre de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2012. Aceitam-se opiniões, achou bastante gente presente.

Mira, 15 de Setembro de 2012

António Veríssimo
Guilherme Castro Henriques
Paulo Esperança

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PROVAS DE CONTACTO

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Mais do que uma colectânea de testemunhos, episódios, reflexões, poemas, de quem conviveu de perto com Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, “Provas de Contacto” pretende reflectir esse espírito de fraternidade, de partilha, e a amizade que tem unido todas as entidades e pessoas a título individual em torno destes dois seres maiores da música e da intervenção cívica. Por participarem “nas causas em que acreditavam, sempre com espírito de solidariedade, de generosidade, da vida colectivamente partilhada”, achamos que este livro deverá assumir essa atitude de exemplo de cidadania e servir de incentivo para todos aqueles que defendem as causas da liberdade e da dignidade humana.

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TESTEMUÑA DA PRIMEIRA XIRA DE ZECA AFONSO NA GALIZA

José Afonso e Benedicto Garcia Villar


O 8 de maio de 1972, ás 12 da mañá, estabamos Benedicto, Maite e eu agardando puntualmente na Librería Tanco de Ourense, aquela librería que a hospitalidade cultural e política do seu dono Carlos Vázquez convertía en casa de acollida para todas as boas causas.
Eu estaba nunha impaciente espera, pois Benedicto e Maite xa estiveran na súa casa en Setúbal, pero eu non os coñecía persoalmente. Coñecía, e de non moito tempo, a súa música, que me entusiasmara, e pensar que o home capaz de cantar aquelas cousas ia logo aparecer en persoa, parecíame un soño, que de pronto se materializou ao apareceren as persoas que esperábamos, José Afonso e Zélia.
Dicía Vinicius de Moraes que “a gente não faz amigos, reconhece-os”, e iso foi o que aconteceu, pois aquel dia recoñecín un grande par de amigos.
Logo de comer, ós músicos urxíalles ensaiar, pois Benedicto ia acompañar o Zeca á guitarra, e nunca tiñan tocado xuntos. Pediron hospitalidade ó escultor Acisclo Manzano e, na súa casa, puideron comezar unha colaboración musical que ia durar anos.
O concerto foi no Ateneo de Ourense, e entre o público que enchía a sala, estaban o escritor Eduardo Blanco Amor, os artistas Acisclo, xa citado, e Xaime Quessada, e o médico Manuel Peña Rey, entre outros. O concerto correu moi ben, e ó fin todos aqueles amigos manifestáronnos a súa sorpresa por escoitar a aquele cantor tan bo e, para eles, tan descoñecido. Para máis detalles, pódese consultar o libro de memorias de Benedicto “Sonata de amigos” (Xerais, Vigo, 2008), tendo en conta que o Bene comete a pequena imprecisión de situar no día 9 o que realmente sucedeu o 8, e de aí salta para o 10 en Santiago, coméndose o concerto de Lugo.
Ó dia seguinte, 9 de maio, por tanto, estábamos en Lugo para celebrar o segundo concerto da xira, esta vez no Círculo das Artes, no salón grande, que non estaba nin medio cheo porque a publicidade fora moi mala. O noso querido amigo Luís Macía “Papís”, fora o encargado de facer a xestión no diario local El Progreso para que publicaran unha nota de anuncio para o acto, método gratuíto e normalmente suficiente para un acto cultural, pois na altura celebrábase tan pouca cousa que cando había algo asistía toda a xente que tiña un mínimo de interese por estas cousas. Pero aquel día El Progreso só publicou unha nota mínima e escondida, na que anunciaba un recital de música galaico-portuguesa, co que moita xente debeu de pensar que se trataba de música medieval. O resultado foi que a diferenza de Ourense, onde había unha sala mediana chea, en Lugo había un salón grande medio baldeiro. Con todo o concerto correu ben, a xente, como non podía ser de outra forma, tamén quedou encantada. Como curiosidade direi que foi a única vez que lle escoitei cantar en público a canción Menino d’oiro. Entre os asistentes estaba Xesús Alonso Montero, con quen logo iríamos cear, e que tamén aquí comezou unha fonda amizade co Zeca.
E por fin o dia 10 estamos en Santiago, no Burgo das Nacións, daquela sede da Facultade de Económicas. Remito tamén agora para o libro do Benedicto, que fai unha detallada descrición do multitudinario recital, no que, como é sabido, por primeira vez o Zeca cantou “Grândola vila morena” en público. Só quero engadir dúas cousas: unha é que ó día seguinte viaxei co Zeca e a Zélia no seu coche para Portugal, e fun testemuña do entusiasmo con que o Zeca contaba o concerto de Santiago ós seus amigos de Lisboa e Setúbal. Nunca tiña vivido unha experiencia semellante. A outra é que no verán de 1973, estando eu de visita, acompañeinos a Melides, unha pequena vila costeira onde pretendían alugar unha casa para as vacacións, e por casualidade cadrou de pararmos a comer en Grândola. Mentres o resto da xente facía tertulia co café, o Zeca acenoume para irmos pasear, e fomos ver a sede da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, naquela altura pechada pola PIDE (policía política), o lugar onde coñecera a xente que lle inspirou a canción (em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade…), e comprendín por qué unha canción que nunca cantara en público sen embargo foina cantar a Santiago: porque volveu a encontrar aquel ambiente de solidariedade e fraternidade que o inspiraran en Grândola, e que contribuíu de xeito decisivo para a profunda relación que axiña o ligou a Galicia e aos galegos.
Aproveito a ocasión para aclarar unha lenda urbana que teño escoitado, referente ó disco Venham mais cinco, que comeza co dístico:

A garrafa vazia
de Manuel Maria

Segundo este bulo é unha referencia a unha botella de augardente que lle regalara ó Zeca e ao equipo de músicos, de viaxe para gravar o disco, Manuel María Fernández Teixeiro, o poeta da Terra Chá. Pois ben, podo afirmar que en outubro de 1973, data de gravación do disco, e pouco máis dun ano despois de comezar a súa fecunda relación con Galicia, o Zeca e o Manuel María non se coñecían, e ignoro si se coñeceron máis tarde, pero ata o 25 de abril (de 1974), tiven o pracer e o privilexio de acompañar ó Zeca as tres veces que nese período visitou Galicia (esta de 1972, marzo do 73 e poucos días antes do 25 de abril), falamos horas e horas en longos paseos por Santiago, e nunca mencionou a Manuel María. Por outra parte, o avión de Lisboa a París, onde se gravou o disco, non facía escala en Monforte de Lemos…
Para o Zeca “Manuel María”, de ser unha referencia a unha persoa concreta, sería ao gran poeta setubalense do século XVIII Manuel María Barbosa du Bocage. Lembro que no meu primeiro viaxe a aquelas terras, non ben chegamos a Setúbal, en canto subimos a equipaxe, levoume a coñecer a casa do poeta sadino, por quen sentía unha grande admiración.

Arturo Reguera | Sermos Galiza

 (www.aja.pt)

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GRÂNDOLA GRAVADA ÀS 3 DA MANHÃ

Quando, naquela manhã de Abril de 1970, entrei no avião com destino a Londres, para gravar com o Zeca nos estádios da Pye, apenas sabia trautear alguns dos temas que, no conjunto, formariam o álbum intitulado Traz Outro Amigo Também.
De facto, a minha inclusão naquele trabalho tinha sido decidida poucos dias antes e por razões (como era hábito) um pouco fortuitas. O meu passado musical, muito mais ligado à guitarra eléctrica e ao rock (exercido em conjuntos «à Shadow» ou «à Beatle» como foram os HI-FI e os Álamos), tinha apenas uma única experiência na arca da MPP (Música Popular Portuguesa!) com o disco que tinha gravado com o Duarte e Ciríaco.
Assim, apesar de pouco credenciado para a tarefa, entrei facilmente nos temas e, recordo claramente, nunca receei falhar na sua execução em estúdio. Sei agora que esta confiança derivava directamente da universalidade da música do Zeca.
Acontecia-me afinal o que acontece quando contactamos com uma obra tão consistente como a do Zeca: parece-nos que já a conhecíamos há muito tempo e que, mais do que isso, ela já estava dentro de nós. Foi sempre assim com a música dele. Quando ele a expunha pela primeiríssima vez (às vezes ao telefone e a desoras) vinha a sensação inevitável de «eu já senti isto». E já. Só que o Zeca sabia traduzir tudo isso para um formato exteriormente inteligível.
À partida do aeroporto, a primeira surpresa: o Luís Filipe Colaço (homem da rádio, companheiro de Coimbra e ex-guitarrista dos Álamos), já dentro do avião, é chamado pelo comandante, mandado sair e retido em Lisboa pela DGS por dois ou três dias. Conseguiu juntar-se a nós em Londres, mais tarde, recorrendo sei lá a que expedientes para convencer os zelosos Pides da inocuidade da sua viagem.
À chegada, a segunda surpresa. A guitarra que, muito profissionalmente, levava sob o assento e sem caixa protectora, apresentava uma rachadela monumental que a tomava, para sempre, inútil.
Só os bons ofícios dos amigos que o Zeca tinha em Londres (o Zeca tinha amigos em toda a parte) permitiram arranjar uma guitarra decente para a gravação.
As sessões no estúdio começaram com o «Maria Faia» e com a delícia de trabalhar com uma máquina de 4 (quatro!) pistas. A abundância de meios técnicos, superiores aos que conhecíamos, foi inspiradora. Pude sobrepor várias faixas de guitarra, obtendo efeitos orquestrais que, na época, pareciam interessantes.
As onze faixas foram gravadas sem sacrifício em várias sessões diurnas, ao longo de duas semanas ponteadas por passeios pela grande capital que parecia, então, tão diferente do nosso meio natal.
Nos corredores alcatifados do hotel, o Zeca colocava a sua energia em demonstrações amigáveis de judo (modalidade que abraçara recentemente).
Dos muitos amigos que apareciam no estúdio para ver o grande autor-intérprete, como já era reconhecido, recordo o brasileiro tropicalista Gilberto Gil, exilado pela ditadura. Esteve presente na gravação de «Verdes São os Campos» e a introdução de guitarra – inventada na hora – teve a sua aprovação.
Terminado o trabalho e quando, já em Portugal, recebemos um exemplar do disco para avaliação, o Zeca reprovou-o por não gostar da mistura e deu instruções para esta ser feita de maneira diferente. Se havia (e havia) zonas em que o Zeca não fazia concessões, uma era de certeza a que dizia respeito ao ambiente musical das suas canções, especialmente se eram para colocar em disco.
Nos dois discos que gravei com ele, testemunhei esse perfeccionismo, inesperado num homem tão simples e que não era, de modo nenhum, um instrumentista, nem um conhecedor das subtilezas técnicas dos estúdios de gravação. Nem precisava ser.
Ainda conservo o protótipo rejeitado (um vinil). A venda do disco, editado pela Arnaldo Trindade, decorrera como era costume: um ou dois dias nas montras das lojas e, depois da proibição pela censura, clandestinamente e ao mesmo ritmo. Ficámos, provavelmente, a dever ao Sr. Arnaldo Trindade a edição de autores como o Zeca e o Adriano, em condições comercialmente tão adversas.
No ano seguinte – em Outubro/Novembro a minha segunda experiência discográfica com o Zeca. Aqui, já ele tinha ouvido as duas vozes portuguesas no exílio em Paris que traziam os sons novos que ele constantemente procurava. O José Mário Branco foi incumbido da direcção musical desse novo disco que viria a chamar-se Cantigas do Maio. Foi ele que enquadrou o Zeca num ambiente de trabalho bem estruturado e com o tacto humano adequado a não fazer o Zeca sentir-se engaiolado e artisticamente diminuído. A gravação decorreu num castelo-estúdio dos arredores de Paris e teve a colaboração (bem audível em algumas faixas) do Francisco Fanhais.
A direcção musical e a presença humana do Zé Mário Branco revelaram-se fundamentais para o bom sucesso do trabalho. O seu conhecimento do meio musical parisiense conseguiu trazer ao estúdio músicos de primeira categoria -como é o caso do percussionista Michel Delaport, com os seus sons indianos tão bem aproveitados no «Senhor Arcanjo».Foi aí que gravámos (em sessões, desta vez, nocturnas) o «Grândola» com o som dos passos obtido no exterior do castelo às três da manhã. A mistura final foi feita no estúdio e desta vez (abençoado Zé Mário) não foi rejeitada. Foi o meu segundo e último disco com o Zeca. A minha vida profissional afastou-me irremediavelmente do meio e só volto a vê-lo, anos mais tarde, no quarto de uma clínica em Coimbra. Já estava ferido de morte pela doença, mas pensava ainda em mais canções e tinha esperança.

Carlos Correia (Bóris) 

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JOSÉ MÁRIO BRANCO, SOBRE JOSÉ AFONSO

“Veio, de menino de oiro pela mão, acordar a madrugada. E fez mais, às vezes, uma só canção do que muita panfletada” .
Nos depoimentos que frequentemente são produzidos acerca do Zeca Afonso acaba sempre por haver uma tendência para destacar as riquezas, sem dúvida apaixonantes e essenciais, da sua imensa personalidade. Tal facto dever-se-á por certo à clara transparência da sua prática de vida e à naturalidade com que punha, no mais quotidiano gesto, todo o sentido dos valores que respirava – numa palavra, o exemplo que foi todo o seu percurso como cidadão, companheiro e artista.
Num país (e numa época) em que, por força da opressão, a criação – frágil e livre – se viu obrigada a alistar-se nos exércitos da utilidade social, é de esperar que se repare mais na luminosidade do exemplo do que na geniali­dade intrínseca da obra.
Mas José Afonso – a par de Ferré, Brel, Yupanqui, Dylan ou Chico Buarque – é um dos poucos autores/intérpretes que, no nosso século, provaram que a forma musical “canção popular” ultrapassa muito o estatuto de arte menor e atinge os mais altos níveis de qualidade estética poético-musical.
Diga-se, em abono da verdade, que o próprio Zeca Afonso nunca apreciou muito que se puxasse para este campo o debate sobre a sua obra. Sempre cuidando (e com que mestria!) os aspectos formais as suas canções, ele sobrelevava sistematicamente a sua po­tencial utilidade para as pequenas e grandes causas da Humanidade. Sentia-se mais à vontade na pele de testemunha activa do seu tempo do que na de um poeta prospector de eternidades. Certamente por saber, como sem­pre souberam os grandes, que os “aspectos formais” não são assim tão meramente formais, e que é sempre do solitário combate contra a matéria que acaba por nascer o sentido da obra criada.
O gesto criativo de José Afonso era, à primeira vista, espontâneo, simples, quase primitivo e orgânico. A balada coimbrã – matriz de origem, ela própria radicada no cancioneiro tradicio­nal beirão e açoriano – foi o veículo formal de um poderoso assumir das suas raízes poético-musicais. Anos mais tarde, a vivência africana provoca-lhe uma verdadeira explosão de formas melódicas, rítmicas e tímbricas, e – talvez mais que tudo – da função musical da palavra cantada.
O chão desta fonte de música era a sua profunda cultura humanística, as­similada e vivida. Praticar a liberda­de dá asas à criação, eis o que a vida e a obra do Zeca nos ensinam.
A obra de José Afonso, no seu todo, é um património fundamental da cultura portuguesa deste século. Fonte inesgotável de propostas, de caminhos possíveis, limiar de contacto directo com as sombras da nossa identidade de povo antigo e perdido. E, tal como a todo o nosso património, essa obra vive no perigo permanente de lhe acontecer o que vi, não há ainda mui­to tempo, numa praça de Lisboa: uma belíssima vivenda pombalina disfarça­da de loja de “hamburgers”.
Começam a abundar, por aí, deplorá­veis sinais de um aproveitamento bas­tardo e oportunista do seu génio.
Que não se cansem de nascer as fontes onde o Zeca foi beber.

– José Mário Branco

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“EM JEITO DE BILHETE-POSTAL…”

“Adriano Correia de Oliveira,
E, no entanto, apesar de abril, é urgente ouvir a tua voz. Para lá da inevitável distância que, por momentos, nos separa. Com a tua teimosia de gritar a liberdade sem fronteiras. Contra o saudosismo inerte dos que se rendem ao sossego das homenagens sem futuro. Na recusa permanente dos limites inventados por aqueles que desistem de lutar por madrugadas impossíveis.
Porque só contigo saberemos rasgar este mar de pequenas angústias que se vão somando inexoravelmente junto ao cais vazio deste país. Para que de novo nos ergamos na certeza de cantarmos as mesmas canções de raiva e de alegria pelos caminhos de todos os dias. Na certeza reencontrada de que todos juntos iremos desenhar o espaço aberto que sempre sonhámos sem muralhas.
Ainda que te pareça que talvez seja demasiado tarde para reacender a chama adormecida na memória de todos os que inquietaste, viemos aqui dizer-te que são horas de recomeçar a viagem. Não se trata de romagem de saudade ou de pretexto para revivalismos sem sentido. Estamos aqui. Unidos pelas canções e pelos gestos de coragem que generosamente nos deixaste em cada momento.
Não nos faças esperar.
E, sobretudo, não te desculpes com a morte.”

Vieira da Silva

-retirado daqui.

 

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